sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Casa 2


Normalmente, para o homem, o aspecto mais importante para avaliar uma relação, de facto, é o sexo. Uma mulher pode ser inteligente, interessante, ter uma aura magnifica, ser uma companheira extraordinária, compreensiva e autónoma. Pode o mimar de forma fantástica, das pantufas até a cozinha, e apesar disso vai a correr atrás de outra que o arrasta constantemente para a cama e que, de resto, não sabe fazer mais nada do que isso.

Vulgarizado pelo hit pandza-dzukuta do músico Ziqo, que apela a que sua mulher não se chateie porque ele vai para a Casa 2, na nossa sociedade, o termo em referencia é usado para designar a mulher “não oficial” ou a “outra” que se relaciona com um homem casado, ou de alguma forma comprometido com outra mulher, sendo que esta é solteira.

A designação Casa 2 faz ressurgir das cinzas questões latentes na nossa cultura: amantismo, poligamia e respeito pela parceira pois, quando arrogantemente se apela a que a mulher aceite a “outra” porque “ele (homem) tem tanto para dar a uma (Casa 1) como a outra (Casa 2) e que o que é dela está guardado”, nada mais se está a fazer do que rebaixá-la ao escalão mais baixo da falta de respeito!

Mas o que torna isto possível? Ou melhor, como é que as mulheres se “elevam ou baixam” a tal categoria? Será que não se apercebem da “roubada” a tempo de fugir? E a Casa 1? Que comportamento deve adoptar? Submissão ou rejeição a esta pública e clara falta de respeito?

Nos dias de hoje é-nos um difícil saber em quem confiar. Por vezes, nem nos apercebemos dos pequenos sinais que estão diante de nós e dados diariamente pelos homens, sinais esses que nos permitiriam perceber o tipo de vida que levam e com que com eles nos arrastam.

Eis alguns traços típicos de homens com Casa 2:

§ Sicrano trai a Casa 1 e diz a Casa 2 que é casado e sente-se infeliz (?) no seu casamento ou com a namorada;

§ Beltrano, trai a Casa 1 e mente para a Casa 2, dizendo que não é casado ou comprometido e inventa 1001 desculpas para fugir de compromissos (trabalho, reuniões de última hora, viagens de trabalho, morte de familiar, etc.);

§ Terrano (todo-o-terreno) fica por cima do muro, não diz nem que é comprometido nem que não é. É uma incógnita!

No caso de Sicrano, ou seja, do homem assumidamente casado, e que se diz infeliz (à Casa 2), obviamente que ele irá dar-lhe mil motivos para não se separar da Casa 1. Para tal, usará como prováveis razões o facto de se ter casado em comunhão de bens, e que com a separação perderá parte da “fortuna”; que a mulher é doente ou desequilibrada a ponto de ser “bem capaz de cometer suicídio”; que os filhos são pequenos, que a Igreja não permite, e outro rol de ladainhas.

Nesta relação, a Casa 2 serve de muro das lamentações. É nela onde ele busca o tal equilíbrio que falta em casa levando esta situação por vezes muitos anos e, com o tempo o sentimento se vai consolidando, chegando uma altura em que a Casa 2 está tão envolvida que já nem consegue dizer BASTA! Se, a meio de caminho surge um filho, o estatuto de Casa 2 fica então confirmado e muitas vezes “legal”.

No segundo caso, o do Beltrano, o casado não assumido e que se diz separado, divorciado ou seja lá o que for, vive de mentiras, tanto para Casa 1 como para a Casa 2. Desaparece sem razão aparente, inventa viagens de trabalho, não atende chamadas telefónicas ou desliga o telemóvel. Por vezes tem problemas familiares que nem sequer pode partilhar com a sua mais que tudo, a Casa 2, escondendo-se na habitual frase “estou a passar por uma situação difícil, não te posso falar por enquanto”.

Este “abastado proprietário de Casas vivas”, quando finalmente aparece, está morto de saudades, oferece presentes, fala bonito tudo aquilo que nós Casas (1 e 2) queremos ouvir. Ele encanta e leva-nos facilmente na conversa a ponto de estarmos tão loucas de paixão de não enxergarmos o crápula que ele é.

O homem Terrano é o pior (pior?), este não diz nem que sim, nem que não. Foge a esse tipo de conversa com teorias do tipo “ninguém é de ninguém”. É um galã, carinhoso, atencioso mas nunca diz as palavras mágicas e vai induzindo a Casa 2 a fazer as coisas baseiada em suposições do tipo “se ele fez/disse isto é porque gosta de mim ou é só meu”, aqui a paixão está a falar mais alto.

O Terrano não assume nada, a responsabilidade é da Casa 2 que nem sequer sabe que tipo de relação tem com o sujeito mas já está tão apaixonada que não consegue sair ou tem medo de questionar a relação. Enfim, é um desespero total e no fim, ele dá-lhe um pontapé na bunda e ainda dá um jeito de fazer com que a Casa 2 carregue a culpa, porque ele nunca lhe pediu em namoro.

A grande questão é: onde anda o nosso “sexto sentido” nesse momento? O que nos faz não vermos que estamos numa roubada? Como encarar uma situação destas nas duas posições (Casa 1 e 2)?

11 comentários:

Jonathan McCharty disse...

Falando numa perspectiva "masculina", sexo tira-nos a cabeca muitas das vezes, conforme referistes na postagem. O que eu acho e' que muitas das vezes falta dialogo entre os conjuges nesta materia. Se cada casal abordasse esta tematica "sem pudores", evitava-se muito das "casa 2". E' preciso conversar (aqui falo de homens e mulheres) sobre que posicoes e' que gosta, "como quer", etc. Muitas das vezes vamos procurar fora, o que podemos ter a fartura dentro de casa. Principalmente, depois de casadas, muitas mulheres tem tendencia a ficar muito "conservadoras". Andam sempre com "dores de cabeca", "tou sem vontade", etc. Nesta coisa de sexo, os homens costumam ser muito expontaneos. A mulher ta cozinhar, tao a ver um programa, tao no banheiro, etc...Se cada esposa "reagisse positivamente" nessas circunstancias (o que suponho, aconteca com as da casa2), todo o homem corria pra casa depois do trabalho. O que eu acho e' que o homem (e alguma evidencia prova isso) tem mais apetite sexual que a mulher. E parece que estas nao aguentam com a pedalada. Se calhar e' por isso que os farmeiros tem manadas apenas com um macho (esta e' mesmo pra provocar "pulgas" as organizacoes "feministas"). E nao vale a pena reduzir esta tematica ao contexto africano, onde o negro e' considerado "predador sexual". Para quem acompanha os media internacionais, o "so called civilized world" tem destas noticias todos os dias. E aqui falo de altas individualidades publicas (o ultimo dos quais foi o respeitado democrata John Edwards nos EUA). Isto aqui e' algo inerente a natureza humana e o "Vasikate va Mocambique" faz bem em criar este debate "desnudado".

Bom weekend e ve-la se toma bem conta do assunto la em casa, hehe!

ximbitane disse...

Os teus argumentos, como bem dizes, tem o condão de ser na perspectiva masculina. Concordo plenamente quando te referes ao "dialogo" como força motora para a prevençao e resoluçao de conflitos entre um casal.

Amigo, nao concordo quando dizes que os homens sao mais propensos ao sexo, se assim fosse, as prostitutas nao aguentariam 10 homens por noite e cada um com o seu numero de rounds, so para exemplificar.

O que acontece é que o homens nunca aprendem, na minha perspectiva, que as mulheres precisam de sua ajuda. E nao sao so as mulheres domesticas! As trabalhadoras tambem tem necessidade de apoio do homem.As mulheres nao sao maquinas e fadigam-se!

Logo pela manha sao elas que acordam cedo, preparam os banhos, matabichos e o homem continua resfastelado na cama até ao ultimo minuto. Nao podera este levantar-se e arrumar a cama? Note-se, ainda estamos nas primeiras horas da manha! O que voce espera que aconteça no fim do dia?

Quanto a Casa 2, muito bem! Esta sempre linda e cheirosa lhe aguardando cheia de força e fogo! Invirta o papel e ponha essa mulher no lugar da Casa 1 o que acontecera? Voltamos a estaca zero!

Se os homens assumissem uma atitude cordial e preocupada com o seu bem estar, esse cenario nao existiria. Infelizmente muitos homens nao sabem ler nas entrelinhas ou as mulheres nao sabem escrever em linhas. Quando uma mulher diz que esta com dor de cabeça, espera que o companheiro pergunte a causa e juntos procurem a soluçao!

Uma desculpa tao esfarrapada e frequente como essa é um pedido de socorro, aprendam de uma vez por todas. Mulher "cuidada" até a sair da maternidade embarca num round na cama. Experimentem, grandes surpresas terao e ... bau bau Casa 2!

Jonathan McCharty disse...

Focas um ponto interessante, este dos homens nao ajudarem com as tarefas domesticas. Esse e' um esforco que deve fazer parte da emancipacao da mulher. Em minha casa procuramos balancar este aspecto e, quando nao temos empregada (caso de fins de semana) eu nao me importo em cozinhar, por exemplo. Acho que isso faz parte da "cultura familiar". Essas tarefas domesticas, aprendi da minha mae, nao da minha esposa. Por isso, se algo precisa mudar numa sociedade, isso tem que comecar pela maneira como cada mulher educa os seus filhos.
Gostei do que referiste sobre a troca de papeis entre "casa1" e "casa2". Essa e' uma verdade irrefutavel e, sem duvidas, se volta a "estaca zero".
Bom fim de semana amiga, e que mais mulheres deiam seus subsidios a este debate interessante.

AGRY disse...

Mais uma excelente postagem de Xim. Polémica, também.
Um franco-atirador ao serviço de boas causas. Uma defensora intransigente dos legítimos direitos das cidadãs.
Não gostaria de assumir o papel de advogado-do-diabo nem, tão-pouco, o de bonzinho. No entanto, não resisto em afirmar que, globalmente, concordo com os argumentos desfilados pela Xim.
Ninguém pode lutar com um leopardo de mãos nuas mas há quem o consiga. Há também quem opte por construir armadilhas para os capturar.

ximbitane disse...

Jonathan, voce conhece melhor esforço do que fazer greve? Bom, podemos até nao ser estremistas! as que tal apenas fazermos o caril e deixarmos o arroz? Os homens o farao ou comerao caril com pao!E se so fazemos arroz branco? Os homens encontrarao soluçao?

Conheço muitos homens, os da minha geraçao que nao so aprenderam a fazer as lides de casa como até sabem fazer tranças. E hoje o que é feito desses homens?

A conjuntura social tem a sua cota parte! Se voce pede ao "charmosao" que va desmachando as tranças a menina enquanto amamenta o outro, dira que isso nao é trabalho de homem, é coisa de maricas! A filha é so da mulher?

Se o pedes que va ao mercado, nem precisa fazer muito esforço é so ir a banca da tia Alice com a lista ja feita que historia contara? Bom, Jonathan, felizmente para voces a emancipaçao da mulher é uma luta pacifica!

ximbitane disse...

Agry, sou modesta e por isso nao posso colher os louros sozinha! Na postagem em referencia tem a mao/visao das duas conceptoras do blog: Yndongah e Ximbitane!

Agora essa de "franco-atirador ao serviço de boas causas. Uma defensora intransigente dos legítimos direitos das cidadãs", aceito sem pestanejar e arrasto comigo a Yndongah.

Yndongah disse...

Caros
Jonathan, gostei da forma como iniciaste o debate, com uso de uma linguagem explicita , sem preconceitos. Concordo contigo em relação a conversa entre casais, e não precisa ser só em matéria de sexo , uma conversa em que cada um se exprime, entende e se sente entendido, e até se riem é muito importante pois cultiva a cumplicidade e quem sabe os efeitos de uma casa 2 não sejam tao“devastadores”. Contudo, não concordo que é a falta de conversa que propicia a traiçao, julgo que há algo mais que isso. Será? É que as vezes acho que o homem trai por trair!É algo hormonal, faz bem ao ego, o homem pode amar e trair a mesma mulher!

Em relação as dores de cabeça, falta de pedalada, temos que perceber que o papel da mulher tende a passar de dona de casa-aquela que fica a espera que o marido volte com todos os seus “apetites” e serví-lo- para aquela que para além das obrigações familiares tem as profissionais. Isto tudo gera cansaço, stress, frustrações, que constituem um atentado a sobrevivência da relação.Dái que seja importante a colaboração do companheiro.Gosto de saber que o Jonathan comparticipa nas tarefas domésticas, isto quebra certos tabús de que o homem que faz isso tem a sua “macheza” reduzida.

Tal como tú , gostaria e espero que mais mulheres participem neste debate, afinal o grande objectivo é tentar perceber como nos deixamos cair na conversa dos homens.

Agry, realmente não se pode lutar com um leopardo de as mãos nuas, é por isso que o assunto está a ser levantado aqui, para juntos buscarmos as estratégias para armadilhá-lo.
Abraços a todos

Jonathan McCharty disse...

Yndongah!
Essa do "homem trai por trair", e' optima para comecar a semana laboral, hehe! Portanto, neste aspecto, algo de "irracional", "mao invisivel", o comandam!!
Eu acho que tudo tem uma razao, uma causa! Nao podemos imputar factos fortes como estes, a meras "forcas externas" (ou internas??).

Na perspectiva "feminina", o que a Yndongah acha que conduz uma mulher a trair o seu parceiro??

Concordo que este e' um debate actual e seria salutar ter aqui varios angulos de visao e experiencias "reais" de traiccao e suas motivacoes!

Tenham um bom inicio da labuta semanal!

Yndongah disse...

Jonathah,

A mulher precisa de uma razão para trair... homem precisa de uma mulher!

Obrigada e boa semana pa ti também

JOSÉ disse...

Este assunto é demasiado sério e complexo para nos perdermos em generalizações ou usar argumentos feministas ou machistas.
O amantismo é um problema que afecta toda a sociedade e não vamos a lado nenhum se persistirmos em culpar só os homens por este fenómeno. Os homens são os principais culpados mas conheço demasiados casos em que as mulheres não são vítimas. Quando um relacionamento não funciona, frequentemente não há só um culpado.
Alguns entendidos garantem que o homem é por natureza um predator e que a monogamia é uma imposição da sociedade, é uma teoria interessante mas eu não vou por aí, cada pessoa tem de assumir responsabilidade pelas suas acções.
O sexo pode não ser o ingrediente mais importante num relacionamento mas certamente que não pode haver um bom casamento sem um bom relacionamento sexual. Os homens procuram fora a o que não encontram em casa, embora infelizmente muitos homens insistem nesse tipo de comportamento apesar de terem bom relacionamento sexual com as esposas. Atenção, o sexo não é o único motivo para o amantismo e nem sequer estamos a abordar a influência cultural e as pressões da sociedade.
O facto de as prostitutes terem relações sexuais com diversos parceiros apenas revela que as mulheres, ao contrário dos homens, podem ter sexo sem sentirem prazer.
Eu estou convicto que esta questão do amantismo pode ser resolvida quando há um diálogo franco e aberto, despido de preconceitos, olhos nos olhos.

ximbitane disse...

Concordo em genero e numero, José! As mulheres nao estão isentas de culpa. Mas, o facto de uma mulher ter amantes não é interpretado da mesma forma pela sociedade. Alias, a esse proposito vou postar algo!