quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Mulheres Possiveis


"Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.
Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.
É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor..
Três dias.
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada.
Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir.
Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo..
Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante".

Martha Medeiros ( recebi por e-mail)
Frase da semana: Os homens distinguem-se pelo que fazem, as mulheres pelo que levam os homens a fazer. Drummond

6 comentários:

Anónimo disse...

Uhmmmm, existe essa mulher descrita ai?

Matsinhe disse...

É um ideal de mulher "possível". Em África hinga singita não ter a "agenda lotada" de cuidar de tudo e todos... dirão que tem ULOLO (preguiça) e devolveremos a procedência com direito à indemnização e retorno da mobília daquela casa de mobílias que demos de lobolo.

MAIS a sério. É tempo de as mulheres perseguirem esse ideal.

GM

PS: Hahahaha, a minha que observe e critique a forma como esse ideal é perseguido....hehehehe

Yndongah disse...

Caro anonimo,
Ė impossível agregar todas estas caracteristicas numa única mulher, daqui podem se formar as variantes de ”mulheres possiveis”.Alias julgo que em algum momento nos identificamos no texto, há uma ou outra caracteristica aqui descrita que gravita em nós.



Matsinhe,
Gosto dos teus comentarios
Obrigado pela força continuaremos a perseguir o ideial.
Essa do “estorno” é forte.Leva‐me a perguntar afinal de onde somos ou onde é o nosso lugar??Veja que na familia onde a mulher nasce é encarada como uma passageira, portanto, é preciso formá‐la prepará‐la para a sua propria familia, que se presume que seja a do marido,porém chegando lá é também vista como estrangeira e ”singuita não ter a agenda lotada para cuidar de tudo e de todos“ como tu mesmo dizes volta.... para onde?

Júlio Mutisse disse...

Yndongah,

É o equilíbrio que as mulheres conseguem entre o ser "passageiras" na família paterna e ser "estrangeiras" na família do marido que as torna muito especiais.

É conseguirem deixar saudade na família de nascença e se fazerem amar na família de "acolhimento marital" e construirem um lugar próprio onde o respeito brote não apenas da consanguinidade, muito menos do afecto, mas de serem ELAS: mães, esposas, profissionais, donas de casa, chefes do condomínio, mães turma etc.

Estou a ser idealista? Talvez. Para onde volta a mulher "devolvida" do lar conjugal? Na prática e normalmente volta para "casa de papá", repare: "casa de papá" que não é mais a sua. Mas no consciente das GRANDES mulheres, elas não voltam, elas ficam no maravilhoso que a sua grandiosidade cria.

X!mb!t@nE disse...

O anonimo vem com uma pergunta interessante: "existe essa mulher descrita ai"? Pessoalmente nao acredito, mas parece-me que se esta a falar da multiplicidade de facetas ou de mulheres possiveis.

Acima de tudo, acredito que a mensagem é: ninguém é superwoman pelos outros, tem que sê-lo para si mesma agradando aos outros sem se esquecer nunca de si

poesia disse...

O desfile de desejos e de facetas múltiplas percorre o apetite e o desdém de alguns cépticos
desta capacidade desafiadora da mulher.
Amalgamar , construindo, uma mulher multifacetada , à la carte, pode funcionar como uma provocação à ausência de criatividade e de bom humor, da parte de alguns de nós. Constructo interessante.
Bjs